terça-feira, 17 de janeiro de 2017

ANO NOVO


Por Vicente Formigli

Não há nada mais decepcionante do que você acordar no primeiro dia do ano novo e ver que tudo, absolutamente tudo, está exatamente igual ao dia (ao ano) anterior. Nosso saudoso mestre, o professor e poeta Dorival de Freitas, numa de suas aulas, cita um tal filósofo - não me recordo mais o nome - que passa em vigília a madrugada do Ano Novo em busca de notar algum excêntrico ou fantástico evento que delineasse fenomenicamente essa demarcação temporal, mas qual não foi sua decepção ao notar que realmente nada acontece.
            A existência de demarcações cronológicas que marcam pontos festivos e comemorativos a que se atrela as atividades da vida civil é inerente à própria organização social humana e, como tal, existe desde sempre. Nas antigas civilizações, como as dos mesopotâmios, egípcios e chineses, acontecimentos naturais como os solstícios e o início e o fim das estações do ano, delimitavam essas marcações cronológicas. Para esses povos, usualmente, as datas relacionadas com a semeadura e as colheitas assinalava o início e o final de um determinado período cronológico, que poderiam ser identificados com o “ano novo”, correspondendo aos períodos de rituais propiciatórios ou de agradecimento às divindades se as colheitas tivessem sido proveitosas ou não. 
            Entre os gregos e romanos, aos quais estamos mais “organicamente” ligados, o ano igualmente era organizado em torno de datas e acontecimentos comemorativos, marcando, assim, o início, o desenrolar e o final de cada ciclo temporal. Com efeito, Hesíodo, no insigne “As obras e os dias”, explicita toda a divisão do trabalho campestre de acordo com as balizas cronológicas ditadas pelos “dias”, às quais “as obras” devem se orientar para fazer frutificar a terra, sob as bênçãos dos deuses e do trabalho braçal do agricultor:

          “Assim que as Pleiades, de Atlante filhas
           Nascerem, a colheita dá princípio,
           E lavra, logo que elas se puserem.
           Quarenta dias e quarenta noites
           Esta constelação está oculta,
           Mas revolvido o ano, reaparece,
           Quando se estão as foices afiando.
           Tal é a lei dos campos para aqueles,
           Que perto do agitado mar habitam
           E para os que vivem nos selvosos vales.”

            A bucólica descrição da vida pastoril contida nas “Geórgicas”, de Virgílio, por sua vez, fulcra-se, toda ela, nas diversas estações percorridas, ao longo do ano, pelo sol, pela Lua e pelas estrelas: “Fanais do etéreo espaço, que pelos céus guiais o ano a passo e passo” (I, 6-7).
            Sob o poder e a influência espiritual da Igreja Católica, na Idade Média, o ano passou a ser divido sob a égide da Liturgia, sendo fixadas diversas etapas cronológicas, como o Advento, o Natal, a Quaresma, a Semana Santa, as festas dos santos, etc, ao lado da organização temporal da vida civil, com o calendário gregoriano. Diversos outros eventos ou celebrações, com isso, se organizavam de acordo com essas referências temporais, como o Carnaval – “despedida da carne”, na véspera do primeiro dia da Quaresma ou a comemoração do ano novo.
            O conceito de “ano novo”, assim, sempre esteve ligado à divisão do ano e também às atividades sociais relacionadas com datas especificas. Conquanto se comemore o fim e o início do ano civil desde a antiga Roma, evidentemente as características de tal comemoração variou muito no tempo. Hodiernamente, somos herdeiros da celebração de ano novo em sua vertente francesa. Originalmente, a palavra “reveillon” significava qualquer tipo de “refeição festiva” feita durante a noite, mas que entre nós tomou esse sentido bem característico.
            A celebração de uma nova etapa temporal que se inicia, com seu caráter de renovação ou recomeço, mas, ao mesmo tempo, em que se avança mais e mais na História, parece que se explica sob o amalgama de uma dupla tradição cultural. Na Antiguidade havia uma concepção cíclica do Tempo e a História, concepção essa que foi nos legada sob a forma do mito do Eterno Retorno. Ao mesmo tempo, porém, com o advento do Cristianismo, principalmente após o conceito agostiniano de Tempo, passou a vigorar no Ocidente um conceito linear, tanto da História quanto do Tempo.
            Procurando escapar dos espinhosos percalços nas relações entre Cronologia, Tempo e História, podemos notar que as sociedades ocidentais, de modo geral, e as pessoas, de modo particular, tendem a essa dupla caracterização: a objetividade da Cronologia e da História e o caráter subjetivo do Tempo.
            Pois, simultaneamente, se avançamos na História, ano após ano, por outro lado, do ponto de vista subjetivo, o caráter cíclico do Tempo nos afigura pela repetição, ad infinitum,  dessas mesmas estações temporais. Ao schopenhaueriano pessimismo de um Machado de Assis, por exemplo, no seu romance “Ressurreição”, em que o personagem ironiza as pessoas que comemoram o ano novo sem reparar que não passa de um ano a menos rumo ao túmulo, as pessoas tendem a ter essa nova esperança. Nada há mais confortador do que saber que poderemos sempre repetir o ano, passando novamente pelos mesmos dias e pelos mesmos meses, numa sensação que estarmos tendo uma nova chance de nos concertarmos, de termos mais e melhores oportunidades, de termos outras alternativas...
            Por fim, e evidentemente, a questão aqui ventilada, a da mudança, não se deve prender a alguma correlação objetiva com esses marcos cronológicos, que, para todos os efeitos, são meras convenções. Atitudes tais como mudanças de hábitos – parar de fumar, começar um exercício físico, mudar de emprego – dependem unicamente de um esforço individual. O clima psicológico que certas datas ou comemorações podem inspirar no mais das vezes devem corresponder a um esforço individual que pode ser realizado independentemente de datas ou épocas.
            Assim, mais do que ter alguma esperança de mudança objetiva pelo simples fato de se vencer marcos cronológicos, a mudança que devemos procurar é em nós mesmos, conforme o sapiental bordão: se queres mudar o mundo, comece mudando a si mesmo.


Vicente Formigli

é licenciado em Filosofia e especialista em Psicopedagogia. Seu campo de interesse se estende pelos temas filosóficos propriamente ditos, no campo da Fenomenologia, da Epistemologia e da História da Filosofia, além de temas de Cultura e Ideologia e suas relações com a Educação, a Literatura e o Cinema

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